Macacos me mordam

Atualizado: 27 de jul.

Racismo no esporte é bola murcha - Crônica de Marcelo Madeira



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Joel, de calcanhar, toca para Ed que dribla o primeiro, o segundo, deixa o terceiro zagueiro sentado de pernas para o ar e faz o lançamento para a grande área. Mato no peito, driblo o zagueiro e quando estou cara a cara com o goleiro, fitando o ângulo da rede, ouço ecoar em todo o estádio: “Ma-ca-co, ma-ca-co!”

Um calafrio subiu em minha espinha. Acabei dando um bico na bola que foi direto pela linha de fundo. O juiz, erguendo o braço, soou o apito: tiro de meta. Nossos torcedores se iludiram em coro: “Oh!” Levei as mãos à cabeça e desconsolado só pensava: Os gritos de macaco foram pra mim?


Eu já sentia na pele o preconceito e várias formas camufladas de racismo fora dos gramados, mas acreditava que dentro de campo, exercendo minha profissão tão dignamente, estaria livre de tal injúria.


Meus companheiros se solidarizaram comigo: “Agüenta firme Jair, vamos terminar a partida e em seguida faremos uma queixa crime contra esses babacas”. Concordei e, logo já estava envolvido de corpo e alma no jogo.


Minutos depois, num contra-ataque sensacional nosso time estava a caminho da grande área. Eu, o centro-avante, esperava na área, atento a cada lance. Juba, um jogador talentoso, disparara com a bola presa aos seus pés como se esta estivesse amarrada em fios de nylon.


Já na meia lua, ele avista Zezé na direita, que avança deixando os zagueiros desconcertados. Passa para Gil que toca para Janjão, que me vê desmarcado, e faz o cruzamento. A bola passa em frente ao goleiro e cai no meu pé. Numa fração de segundo, como se andássemos em câmera lenta, ouço berros da torcida adversária. Em meio a xingamentos e palavras ofensivas proferidas em coro, eu tinha a sensação de caminhar num corredor nazista em direção à câmera de gás.


Apesar, do sangue quente, mantive a calma. Pensando rápido, dei um chapéu no goleiro e um ligeiro toque na bola, que deslizou tranqüila, macia ao encontro da rede.

Eufórica a torcida se pôs a festejar. O gol para mim tinha outro sabor. Comemorei tranqüilo sem arrogância. Minha equipe me saudou entusiasmada.


O juiz autorizou o recomeço da partida. Em apenas três toques, a bola estava nos pés do centro-avante adversário. Fechei os olhos. Só tive coragem de reabrí-los quando ouvi de ambas as torcidas a exclamação, dividida entre alívio e decepção: “Uh!”


Tiro de meta. O goleiro recua alguns passos, olha para frente, e a torcida adversária aos berros: “Ma-ca-co, ma-ca-co!”


Ele bate o tiro de meta. O estádio inteiro segue o trajeto da bola. O tão cobiçado objeto parece flutuar no ar. Alguns jogadores com a cabeça erguida protegem os olhos dos refletores. Quando de repente, a bola num frenético zigue-zague percorre o céu ensandecida. Numa rapidez alucinante a bola ricocheteia por todo o estádio até cair desmilingüida no meio do campo. O jogo é paralisado. A torcida abismada permanece muda.


É, meus amigos, fim de jogo, o racismo é bola murcha.


Crônica de Marcelo Madeira



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